Política

Suplicy volta à Assembleia de SP com renda básica e ‘oposição civilizada’

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Das poucas verdades certas da vida, uma é que o veterano político Eduardo Suplicy vai aproveitar qualquer chance para falar de renda mínima universal. O tema faz sua cabeça há três décadas e, é óbvio, será uma obsessão no mandato de deputado estadual que ele está prestes a começar em São Paulo.

Mas outro fator se repete, além da defesa de seu projeto de renda básica de cidadania -pagamento pelo governo de uma quantia a todo brasileiro a título de fazer justiça social. A chegada à Assembleia Legislativa é, na verdade, um retorno: foi ali que ele ocupou seu primeiro cargo eletivo, em 1979, pelo MDB.

Um dos fundadores do PT, Suplicy virou personagem folclórico do poder nacional em seus 81 anos de vida, dos quais 24 passou no Senado. Deixou a Casa em 2015, com a decepção jamais superada de não ter sido reeleito pela quarta vez seguida, e passou a ser escalado pelo partido para outras missões.

Foi numa delas que se lançou candidato a deputado estadual em 2022 e cumpriu o que se esperava dele: votação expressiva -807 mil votos, recorde entre os 94 eleitos. Com isso, ajudou a puxar outros nomes da bancada petista, que saltou de 10 eleitos em 2018 para 18.

Para assumir a nova cadeira, Suplicy renuncia ao mandato de vereador da capital paulista, outra tarefa que aceitou por lealdade ao partido.

Ele entrou na Câmara Municipal após retumbantes 301 mil votos em 2016 (maior patamar desde 1988) e renovou a permanência em 2020, com 167 mil. Mesmo com a queda de 44% entre um pleito e outro, foi o recordista de votação não só na cidade, mas no país, em ambos os anos.

A popularidade não foi suficiente, porém, para retornar ao Senado, o que tentou em 2018, recebendo mais de 4,6 milhões de votos e terminando em terceiro lugar na disputa por duas vagas.

Da Câmara, onde vez ou outra se confunde e chama alguma colega vereadora de senadora, ele levará a equipe do gabinete. São assessores que cuidam tanto do amparo técnico nas discussões sobre direitos humanos e população de rua -duas de suas pautas prediletas, sempre vinculadas por ele à necessidade de uma renda básica- quanto de detalhes como, eventualmente, a limpeza de seus óculos.

Carregará também o que define como “debate civilizado” com a oposição, que na Assembleia é a base de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Suplicy conta que após a eleição telefonou para o governador, apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e propôs diálogo, “mesmo tendo divergências”.

Nos encontros com colegas para afinar a atuação da bancada, o futuro deputado estadual reforçou o coro contra a proposta de privatização da Sabesp, um dos primeiros focos de atrito com o Palácio dos Bandeirantes. Também quer fazer parte da Comissão de Direitos Humanos e está em alerta para casos de violência policial, problema que monitora historicamente.

Velhos e novos companheiros adotam uma postura de reverência.

“O Suplicy é um patrimônio do PT”, diz Paulo Fiorilo, parlamentar estadual reeleito. “A presença dele, com sua capacidade de mobilizar a opinião pública, vai aumentar o protagonismo da Assembleia”, comenta Kiko Celeguim, presidente do partido no estado e deputado federal.

O homem da elite branca que desde jovem faz um discurso voltado aos excluídos ajudou o PT a quebrar resistências do eleitorado ao longo dos anos, aliando prestígio e reputação. Seu rival na eleição para prefeito da capital em 1992, Paulo Maluf, usava um jingle de campanha ainda hoje recordado: “A gente não tem nada contra o Suplicy, só não queremos mais o PT mandando aqui”.

Não é que a relação de Suplicy com o PT reflita sempre o estilo pausado e cortês. Os casos anedóticos e performáticos são muitos -a cueca vermelha sobre a calça nos corredores do Senado, o divórcio de Marta Suplicy, as cantorias de “Blowin’ in the Wind”, de Bob Dylan, e de músicas dos Racionais MC’s. Mas também há rusgas.

Uma das mais recentes foi na campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a presidente em 2022. O vereador criou constrangimento público ao se aproximar da mesa de um evento para, exaltado, cobrar Aloizio Mercadante, coordenador do plano de governo, pela ausência da renda básica entre as promessas.

Suplicy considera que seus pedidos de desculpas encerraram o caso e que não restaram mágoas. O episódio não surpreendeu quem convive com ele no partido e conhece sua persistência ao defender posições, sobretudo se isso envolver sua causa maior.

E ele usa toda oportunidade para tentar convencer qualquer interlocutor da viabilidade de seu projeto, que foi transformado em lei pelo Congresso e sancionado por Lula em 2004, mas está desde então sem regulamentação -e, portanto, sem adoção em escala federal.

Com Lula de novo no Planalto, o futuro deputado sonha em ver enfim concretizada sua “profissão de fé”, como o hoje presidente descreveu a utopia do correligionário em uma conversa pública dos dois em 2021. A transcrição do encontro foi convenientemente adicionada à oitava edição de seu livro “Renda de Cidadania – A Saída É pela Porta”.

Uma história espalhada por Suplicy nas últimas semanas demonstra sua expectativa. Convidado para acompanhar as festividades do Dia de Iemanjá em Salvador, ele sugeriu aos participantes que fizessem preces para Lula conseguir tirar a ideia do papel. “Está chegando a hora. Iemanjá vai ajudar”, anima-se.

Além dos apelos espirituais, ele vem acionando o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias.

Os argumentos do autor do projeto incluem desde menções a falas do papa Francisco e do vencedor do Nobel de Economia Amartya Sen até a descrição minuciosa de como a renda básica teve experiências satisfatórias em lugares como Alasca, Macau, Namíbia e Finlândia, muitos dos quais ele visitou.

Um dado que gosta de citar é o de que 57% dos paulistanos são favoráveis à medida, segundo pesquisa da Rede Nossa São Paulo em 2019.

Suplicy diz acreditar que estender programas como o já feito na cidade de Maricá (RJ) daria dignidade a cidadãos como as pessoas em situação de rua que vão a seu gabinete na Câmara em busca de ajuda, por terem nele uma referência. Algumas ficam na portaria do prédio à sua espera.

O senhor que anda a passos lentos pela região central de São Paulo para uma sessão de fotos da Folha é abordado a cada esquina para selfies e abraços por transeuntes e gente que vive nas calçadas.

Com a ajuda de um aparelho de audição preso à orelha, Suplicy ouve queixas sobre a miséria, agradece por votos, devolve um gesto de coração com as mãos para uma moça que lhe acena de longe, beija e é beijado. Nas andanças também é chamado de Eduardo, “seu” Suplicy e Suplão.

Ele será o deputado estadual mais velho da legislatura. A quem lhe pergunta sobre o peso da idade, responde que faz exercícios físicos todos os dias pela manhã e se cuida muito.
“Estou combinando com Deus para ter saúde e ver a renda básica de cidadania realizada no Brasil”, diz ao voltar para o gabinete, rodeado pela equipe. “E sonhos não envelhecem”, completa alguém, lembrando a canção do Clube da Esquina. Suplicy parece se empolgar e sorri. “Vou escutar essa música hoje mesmo.”

FOLHAPRESS

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