No Brasil de 2018, 1 em cada 5 pessoas ainda morre por doenças infecciosas

Em janeiro, vários pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), instituição de pesquisa vinculada ao Ministério da Saúde, foram chamados às pressas de volta das férias. Um surto de hepatite A havia infectado pelo menos 120 pessoas na comunidade do Vidigal, no Rio de Janeiro, e era preciso fazer o sequenciamento genético do vírus com urgência. No final de 2017, correria semelhante acontecera quando a febre amarela obrigou a Fiocruz a produzir mais vacinas, estudar a efetividade das doses fracionadas e treinar profissionais de saúde para evitar que uma epidemia urbana fizesse um estrago na população, como ocorria até meados do século 20.

Ainda assim, 1.190 pessoas foram contaminadas e 373 morreram nos primeiros seis meses de 2018. Agora já se prevê mais trabalho intenso pela frente: dessa vez, com o crescimento da incidência de sarampo iniciada na fronteira norte do Brasil, em razão da entrada de refugiados venezuelanos em Roraima. “O risco de os casos de sarampo se espalharem para outros estados é razoável”, diz Rivaldo Venâncio da Cunha, coordenador de vigilância e dos laboratórios de referência da Fiocruz. “Além da fabricação de mais vacinas, estamos nos preparando para dar suporte à rede de diagnósticos.”

Os episódios relatados pelos técnicos da Fiocruz não decorrem de falta de sorte dos brasileiros. No caso da hepatite A no Rio de Janeiro, o surto carioca foi causado por água contaminada, resultante da falta de sanea-mento básico. Na cidade, 56% do esgoto coletado — nem todo esgoto é coletado — não é tratado. Já para a febre amarela sabe-se que, a cada oito ou dez anos, há um novo surto e é possível se preparar para enfrentá-lo com antecedência.

Em relação ao sarampo, apesar do reforço de imunização nas fronteiras feito pelo governo, os indicadores mostram que a vacinação no país tem diminuído e atingiu, no ano passado, o menor percentual em 16 anos. Apenas 70% das crianças brasileiras foram vacinadas contra o sarampo em 2017. “Se a imunização fosse efetiva, mesmo com a chegada de estrangeiros contaminados, a doença não se espalharia”, afirma Expedito Luna, médico e professor no Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP).

O Brasil de 2018 continua a lidar com doenças que em grande parte do mundo desenvolvido já foram controladas, quando não erradicadas, e sua incidência atesta nosso atraso. Casos de malária e sífilis voltaram a proliferar no país, após anos de seguidas reduções. Tuberculose e hanseníase, males que não se consegue efetivamente erradicar, somam mais de 65 000 casos notificados anualmente. Todos os verões, as doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, como dengue, zika e chikungunya, se transformam num desafio para o sistema público de saúde. Até a poliomielite, erradicada no país em 1990, tem alto risco de retornar. Um levantamento do Ministério da Saúde mostra que 312 cidades no país imunizaram menos da metade das crianças que deveriam receber a dose da vacina em 2017. “A impressão é de que voltamos ao início do século passado”, diz Venâncio, da Fiocruz.

As doenças infectocontagiosas estiveram no centro das discussões da saúde pública em todo o mundo no século 20. Foi no início do século passado que surgiram as vacinas contra tuberculose, difteria, tétano e febre amarela. Após a Segunda Guerra Mundial, desenvolveu-se a imunização contra poliomielite, sarampo e rubéo-la. Ainda assim, em 1970, 40% das mortes por problemas de saúde nos países emergentes eram provenientes de doenças infecciosas — ante 13% nas nações ricas. A situação melhorou no mundo emergente, mas hoje 18% ainda morrem por esses males. O fato é que a parte mais pobre do mundo não atingiu o patamar de 50 anos atrás dos países ricos, enquanto estes reduziram a 8% o número de óbitos por doenças infecciosas. É verdade que a virada do milênio trouxe à pauta problemas de outra natureza.

Em boa parte dos países, o debate foi direcionado para o que fazer e como lidar com as doenças crônico-degenerativas, aquelas causadas pela maior sobrevida da população. Estão lá hipertensão, diabetes, artropatias e, até mesmo, o câncer. “Essas doenças eram menos presentes no passado porque não dava tempo de desenvolvê-las: as pessoas morriam antes por doenças infectocontagiosas”, diz Claudio Lottenberg, presidente da UnitedHealth Group Brasil, controladora do plano de saúde Amil. “Hoje, é de extrema importância acompanhar e ter políticas públicas para essas doenças.”

 

*Visão Digital




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