Filme ‘Cidade Pássaro’ faz de São Paulo um personagem na história de imigrantes

Os carros passam velozes pela Radial Leste, sobre a cabeça dos personagens. As calçadas sujas da praça da República acompanham o caminho dos seus pés. À esquerda na tela, surgem os prédios que emolduram o viaduto do Chá. É assim, aos pouquinhos e de modo sutil, que São Paulo vai ocupando os enquadramentos de “Cidade Pássaro”, filme que chega aos cinemas agora.

A presença da cidade se agiganta conforme a história de Amadi se desembaraça. Vindo da Nigéria, o protagonista desbrava a selva de pedra em busca do irmão, que foi morar ali e acabou sumindo do mapa, para fugir das altas e sufocantes expectativas que a família tinha em relação a ele.

Dirigido por Matias Mariani, “Cidade Pássaro” acaba de sair da Mostra de Cinema de São Paulo, meses depois de passar também pelo Festival de Berlim. Segundo o diretor, a cidade é um dos pontos centrais de seu filme, como um personagem mesmo.

Para dar vida a São Paulo, ele e o diretor de fotografia Leo Bittencourt decidiram gravar o longa na proporção quatro por três -mais quadrada, diferente da mais alongada das telas retangulares de cinema-, com o argumento de que, dessa forma, poderiam privilegiar as linhas verticais da capital paulista.

Mas mesmo com o amor que deixa transparecer pela cidade -e de ter nascido nela-, Mariani foi criado no Rio de Janeiro. Foi só por volta dos 16 anos que começou a visitar a cidade quase que semanalmente, fixando, depois, residência nela.

“Eu acho que São Paulo ainda é ‘subconstruída’ enquanto personagem cinematográfico. Eu acho que o Rio e outras cidades brasileiras têm um caráter mais forte no nosso cinema. São Paulo ainda tem muito espaço para de fato se tornar um personagem”, diz o cineasta, por telefone.

É na ponte aérea São Paulo-Rio de sua juventude que Mariani diz estar a semente de “Cidade Pássaro” –”eu tive uma paixão adolescente pela cidade”, ele brinca. Foi ela que o fez descobrir o cinema e o impulsionou a estudar em Nova York. O sentimento de ser um estranho engolido por aquela vida urbana eletrizante, nos Estados Unidos, o motivou a escrever o roteiro para o longa, anos depois.

“Eu juntei essas duas experiências e decidi fazer um filme sobre estrangeiros em São Paulo. Eu convidei a Maíra Bühler para fazer um primeiro tratamento e pesquisa comigo e foi daí que surgiu a ideia de trazer a comunidade igbo para a trama”, diz ele, sobre a corroteirista de “Cidade Pássaro” e sobre o grupo étnico africano ao qual o protagonista Amadi pertence.

 

*Folhapress




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