Uma roda no que parece ser uma reunião dos alcoólicos anônimos é formada só por pessoas da terceira idade. Uma delas diz que é hora de eles se perdoarem e vencerem seus traumas. Cada um dos componentes daquele círculo, então, começa a citar um tipo de queijo que costumava comer até os anos 2020. “Camembert, parmesão, edam”, dizem eles com voz abafada e lágrimas nos olhos.

No filme “Carnage: Swallowing the Past”, a sociedade britânica de 2067 é vegana e luta para superar os dias de carne na mesa. Para contextualizar os espectadores, o falso documentário volta ao passado e narra o que a levou a adotar o novo regime. O ponto de virada, nas telas, ocorreu em 2021, quando uma pandemia de gripe suína devastou o planeta.

O filme pode ter atrasado alguns meses e errado o animal que originou nossa emergência sanitária, mas oferece um retrato realista o suficiente de como o mundo está vivendo neste recém-chegado ano.

Se o prognóstico feito por “Carnage” em 2017 assusta pela proximidade com a nossa situação atual, alguns outros filmes ambientados em 2021 fizeram previsões muito mais imaginativas, ou até mesmo apocalípticas, para os 347 dias que ainda temos pela frente.

Talvez a pior delas seja a de “Um Lugar Silencioso”. No terror estrelado por Emily Blunt e John Krasinski, a Terra é devastada, mas por criaturas extraterrestres que chegam ao planeta numa série de meteoritos. Atraídos pelo barulho, eles aniquilam impiedosamente qualquer ser que emita o mais discreto dos sons.

Tudo bem que a invasão alienígena da trama começa antes, mas logo em seu início o filme dá um salto temporal de vários meses, que leva seus personagens para o ano em que nos encontramos agora.

Cidades destruídas, uma população formada por pouquíssimos sobreviventes, comunicação por língua de sinais e um silêncio absoluto integram o cenário devastador que o blockbuster –que já devia ter ganhado uma sequência, não fosse a Covid-19– imaginou.

Meteoros também são parte importante do futuro imaginado pela dramédia “Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo”, de Lorene Scafaria. Nela, dois vizinhos descobrem que têm três semanas de vida até que um asteroide destrua a Terra. Mesmo com o contexto deprimente, o filme tem seus momentos de otimismo e é uma boa pedida para quem quer aproveitar o ano recém-chegado ao máximo.

Outro filme que olhou para o espaço na hora de fazer suas previsões para 2021 foi “Gângster na Lua”, de 1969. Dirigida por Roy Ward Baker, a ficção científica foi um fiasco de crítica que não se preocupou muito com o estado da Terra no futuro, e sim preferiu ir além da estratosfera.

Na trama, a Lua está num processo de colonização, com casas em forma de iglus e os lasers como uma causa mortis comum. Um dos pioneiros nessa aventura colonizadora é um bilionário que está de olho num asteroide feito de safiras, o que serve de premissa para o bangue-bangue luminoso deste faroeste lunar.

A tecnologia também foi central em “Johnny Mnemonic, o Cyborg do Futuro”, com Keanu Reeves, dirigido por Robert Longo em 1995. A ficção é daquelas que, assim como “De Volta para o Futuro 2” e “Blade Runner” fizeram em relação a 2015 e 2019, nesta ordem, imagina um banquete de acessórios ultramodernos para o 2021 do espectador.

O longa pode ser considerado uma hipérbole da realidade, com altas doses de alarmismo. Ele acertou algumas tendências em voga hoje, mas não sem as embrulhar numa densa camada de distopia.

“O ano é 2021, não é mais seguro transmitir informações. Telefones, computadores e satélites estão todos vulneráveis”, anuncia o narrador, acenando para a sociedade hiperconectada e para as vidas públicas que levamos na internet. “No futuro, aqueles que controlam a informação controlam o mundo”, continua.

Megacorporações de tecnologia detêm o poder nessa sociedade ficcionalizada, que previu a ascensão dos mercados asiáticos. O prognóstico de “Johnny Mnemonic” está certamente em sintonia com os tempos atuais, mesmo que, ao contrário do personagem de Keanu Reeves, as pessoas hoje não tenham entrada para fios na cabeça ou usem óculos de realidade virtual para fazer telefonemas.

Outra dose de alarmismo para 2021 veio do Japão. O anime “O Tempo com Você”, de Makoto Shinkai, está atualmente nos cinemas brasileiros com sua história fofa de amor juvenil. Nela, o público conhece Hina, uma garota capaz de controlar o clima –às custas de sua própria saúde.

Com um forte discurso ambientalista, a animação faz um alerta sobre a atual crise do clima, com fortes chuvas inundando o Japão, estações do ano descontroladas e recursos naturais finitos e cada vez mais escassos, como o poder da protagonista sugere.

“O Tempo com Você” tem muito a dizer sobre a emergência climática que paira sobre o mundo em que vivemos, principalmente num ano que sucede um recorde histórico de queimadas no Pantanal e a publicação de dados que mostram que a área desmatada da Amazônia em 2019 e 2020 foi a maior da última década.

Diante de tantas distopias, a sensação é que o cinema não foi muito gentil com 2021. Em meio a tanta morte e estrago previstos nesses filmes, no entanto, surge uma trama que parece ter dado um chute menos macabro e mais otimista –ao menos se você não é Donald Trump.

Enquanto Kamala Harris faz história ao se tornar a primeira vice-presidente mulher dos Estados Unidos, nas telas foi Charlize Theron quem previu uma liderança feminina para o país em 2021. No filme “Casal Improvável”, ela é escolhida para ocupar a Casa Branca no que seriam essas últimas eleições em solo americano.

O longa termina com sua personagem assumindo o papel de presidente. O roteiro pode ter errado um degrau na hierarquia de cargos, mas acertou ao prever o maior protagonismo feminino na política. Resta saber como o mandato será e torcer para que um meteoro não caia sobre nós.

 

*Folhapress




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