Vira-Lata de Raça: Ney Matogrosso fala sobre sexo e música em livro

Em 1961, aos 19 anos, o jovem Ney Matogrosso desembarcava em Brasília vindo do Rio de Janeiro, numa rota de “fuga” que começou a traçar quando se alistou em seu estado natal, Mato Grosso. As brigas em casa com o pai, um militar conservador e autoritário, eram intensas e, asfixiado pelo clima de terror e repreensão, resolveu partir vestido de farda. Com o gesto corajoso e desafiador, ele quis quebrar os grilhões de uma vida de opressão e tristeza.

“A Aeronáutica foi (…) uma carta de alforria, pois não aguentava mais ficar com a minha família, num ambiente em que, aos 17 anos, ainda era obrigado a aceitar a imposição de castigos”, lamenta uma das vozes mais marcantes da nossa música no livro de memórias Um Vira-Lata de Raça, lançado pela Editora.

Hoje, aos 77, o artista conta que os cinco anos vividos na então recém-construída capital foram de descobertas e liberdade plena. “Sem dúvida, essa cidade tem um lugar especial em minha vida”, admite. “Nessa época, eu me descobri como ser humano, passei a ter consciência da minha sexualidade, escolher com quem gostaria de dividi-la, sem a culpa cristã”, revela o cantor.

Em Brasília, onde trabalhou até 1966 no Hospital de Base, apresentou-se pela primeira vez como cantor, num festival de música realizado na Universidade de Brasília (UnB), descobrindo, graças ao mestre Livino de Alcântara, que sua voz aguda não era um defeito, como ele achava, mas uma dádiva. Também foi aqui sua primeira transa, com um homem de 40 anos, filho de uma família quatrocentona paulista.

“Definitivamente eu não queria que minha primeira experiência sexual com um homem fosse com qualquer jovenzinho, então resolvi esperar o homem que considerava ideal. (…) Nos apaixonamos e namoramos por um ano”, conta.

Visceral e sem rodeios, a obra – cujo título é baseado numa canção de Rita Lee e do filho Beto, gravada pelo cantor –, passa a limpo a trajetória de uma vida inteira com tom de reflexão, contextualizando o passado e lançando provocações para o futuro. Sem papas na língua, medo ou pudor de esconder tudo sobre sua vida, Ney se escancara numa versão sem filtro de si mesmo. Trata-se de uma catarse do “eu” sem vaidade ou egocentrismo.

“Desde o início da minha trajetória, jornalistas e críticos me retratam como um ser híbrido. (…) Nas primeiras críticas que recebi do meu trabalho, pontuavam que eu reunia os opostos: a fúria de um felino e a leveza de um pássaro. Gosto dessa ideia de reunir os opostos, confundir as classificações e diluir os rótulos”, provoca.

História oral
O livro, cheio de fotos incríveis, começou a ganhar contornos em 2011, quando o poeta Ramon Nunes Mello, interlocutor e organizador da obra, esbarrou com o ídolo numa exposição no Rio de Janeiro sobre os Secos & Molhados, a mítica banda que catapultou a carreira do artista nos anos 1970. Após passar anos alimentando uma pesquisa silenciosa, ele tomou coragem de apresentar a ideia a Ney Matogrosso.

“Detenho-me aqui o papel de organizador das palavras de Ney e não de autor, um interlocutor em busca de um diálogo sobre o agora”, esclarece Ramon Nunes na apresentação da obra.

A princípio, a ideia era contar a história de Ney por meio de reprodução de matérias publicadas ao longo de sua carreira, além das críticas dos discos e dos shows, que surgem como adendo no final do livro, com textos primorosos de gente do naipe de Tárik de Souza, Nelson Motta e por aí vai. Mas a necessidade de um envolvimento mais incisivo, passional e pessoal do artista resultou numa bateria de depoimentos na linha “história oral”.

O produto final é revelador. Ney expurga fantasmas, traumas, liberdades conquistadas e questões polêmicas. A lucidez com que fala sobre política e um Brasil injusto e imoral contagia. “Hoje, não tenho mais ilusão quanto à política como veículo transformador da sociedade”, sentencia.

As primeiras lembranças impregnadas de aventuras sensoriais, as origens pantaneiras, a descoberta da sexualidade e os conflitos pessoais e familiares em torno dessa idiossincrasia, o sucesso apoteótico à frente dos Secos & Molhados, as grandes paixões – entre elas com Cazuza, que durou três fulminantes meses –, o lado transgressor fora e cima dos palcos, com ou sem máscaras, o medo da Aids, a relação com as drogas, Deus, a chegada da velhice.

Numa sociedade dominada cada vez mais pela falsidade e dissimulação, a sinceridade de Ney é um bálsamo. Mais do que isso, é uma inspiração motivadora. A impressão ao ler Vira-Lata de Raça é: cada palavra proferida pelo artista num depoimento de fôlego e entrega não é vão…

 

*Metrópoles

 




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