Prestes a subir no palco, Miúcha relembra passado com Vinicius e Chico

Na casa da rua Buri, no Pacaembu, a carioca Miúcha viveu de 1945 a 1962 os seus “anos dourados em São Paulo”, como espectadora e aprendiz dos amigos do pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda.Vinicius de Moraes estava no centro dessas agitações, sempre agarrado a um violão, ensinando sambas de Noel Rosa e Ismael Silva ou obras próprias, como “Medo de Amar”.

A memória musical do período e canções recém-gravadas em discos de novos compositores orientam os dois shows de Miúcha no Sesc Pompeia, em 18 e 19 de outubro, o dia do aniversário do poeta. “Vira uma espécie de festa pro Vinicius”, diz.

Aos 80 anos, Miúcha preserva lembranças da família fictícia “Buarque de Moraes”, na qual Vinicius era irmão mais moço de Sérgio e irmão mais velho dos filhos do historiador.

Em seu apartamento no Rio de Janeiro, ela se recorda da oposição da mãe, Maria Amélia, ao “desvio” profissional.”Ela não queria que eu cantasse, achava que cantora era Edith Piaf. Aprendi todo o cancioneiro de Piaf para que ela me aceitasse. Até hoje sei.”

Para despertar o orgulho materno, o jovem Chico Buarque anunciou que a atriz Odete Lara gravara “Noite dos Mascarados”. Amélia, porém, bateu o pé: “Tem que ser de Piaf para cima”. O desgosto piorou quando o marido, escoltado por Vinicius, deixou a filha cantar na boate Cave.

Miúcha atribui ao desagrado da mãe o desconforto inicial dela e de Chico com os palcos. A angústia passou, mas ela não esconde o seu barato: “Meu relacionamento é mais com os músicos do que com o público. É um exercício de telepatia que rola muito. Sou capaz de me divertir tanto no ensaio como no show”.

Perto de completar os 81 em 30 de novembro, a cantora revisita sua fase paulista, reverencia o papel de orientador de Vinicius e canta Noel, Tom Jobim e Cézar Mendes.

Assim, encaixou canções como “Pra que Mentir” (Noel e Vadico), “Quando a Noite me Entende” (Vinicius e Antonio Maria), “Paulista” (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto), “E Daí?” (Miguel Gustavo), “Aquele Frevo Axé” (Caetano Veloso e Cézar Mendes) e “Anos Dourados” (Tom e Chico).

+ Rejeitado por Cannes, filme ‘Roma’ é um dos destaques da Mostra de SP

“Ficava reclamando que não estava no Rio e não tinha diálogo de música, que não conhecia as pessoas que faziam a bossa nova. Mas tive meus anos dourados em São Paulo.”

Será acompanhada por Cristóvão Bastos (piano), Jamil Joanes (baixo) e Jurim Moreira (bateria). Com Renato Braz, fará duos em “Maninha” (Chico Buarque), “Samba em Prelúdio” (Vinicius e Baden Powell) e “Ne Me Quitte Pas” (Jacques Brel e Gérard Jouannest).

Haverá o momento instrumental de “Tua Cantiga”, recente parceria de Cristóvão e Chico promovida por Miúcha. “Fiquei fascinada. Disse: Chico vai adorar essa música. Ele estava encrencado com ‘Massarandupió’, de Chiquinho Brown. Botei ‘Tua Cantiga’ e ele fez na hora. Abriu os canais da inspiração.”

Em 1975, a cantora estreou pela Philips com o compacto duplo que trazia “Correnteza”, de Tom Jobim e Luiz Bonfá, “O Que Quer Dizer”, de Péricles Cavalcanti, e o início da parceria de João Donato com Caetano (“Naturalmente”) e Gilberto Gil (“Lugar Comum”).

Gravou naquele ano seus vocais no disco “The Best of Two Worlds”, de Stan Getz e João Gilberto, e tempos depois registraria os dois LPs clássicos com Tom Jobim, lançados em 1977 e 1979. “Outros Sonhos” (Biscoito Fino), de 2007, é seu último álbum de estúdio.

“Quando me casei com João Gilberto, em 1965, não era para ser cantora, mas para conviver com a música. Era tanta música em casa que minha necessidade musical estava preenchida. Só gravei mais tarde.”

Miúcha virou colaboradora relevante dos três nomes centrais da bossa nova: Jobim, Vinicius e seu ex-marido João Gilberto, com quem teve Bebel Gilberto.

A separação, nos anos 1970, jamais afetou o convívio intenso. Discreta em relação à vida privada do músico, ela avalia que a crise do processo de interdição está sendo superada.

“Mais do que trocar ideias, João toca e a gente canta. João faz as músicas de que ele lembra, mudando harmonias. A música nunca é igual. Ele desenvolve um tema e todas as possibilidades rítmicas e harmônicas”, conta Miúcha. “Ele tem um ar muito lúdico em relação à música. Nunca foi um negócio sério, metido. João Donato também tem isso.”

Jobim permanece como uma saudade incansável, fonte de histórias e palavras insólitas. “Era o amigo mais gostoso de ter por perto. Ele tinha muita coisa a ver com meu pai. E eu tinha uma relação muito boa com meu pai. Tom gostava muito da origem das palavras, da etimologia, e às vezes a gente ligava pro papai do Veloso, da Carreta, para fazer uma consulta. Eu gostava de ler dicionário, Tom também”.

De uma família de esquerda, Miúcha tem vivências políticas mais quietas do que os irmãos Chico e Ana de Hollanda. O retraimento nasceu durante a residência no exterior, de 1962 a 1975 -somente a partir de 1971 fez viagens frequentes dos Estados Unidos para o Brasil.

“Meus irmãos, quando o pau estava comendo [na ditadura militar], participaram mais. Eu não vivi esse negócio.”

Sua opinião sobre o país é direta: “Vejo a involução do Brasil, infelizmente. E, sei lá, a música não desperta mais o que despertava. As pessoas se transformavam. Na garotada da época, era o assunto mais importante. Hoje não é mais presente”, avalia.

“Não rola reunião para mostrar música. Todo mundo me manda canções parecidas com as de Chico. Mas já tem um Chico, não é preciso imitá-lo.

MIÚCHA

Quando: 18 e 19 de outubro, às 21h

Onde: no Sesc Pompeia (r. Clélia, 93, São Paulo)

Quanto: R$ 9 a R$ 30

Classificação: 12 anos

 

 

*Com informações da Folhapress.




Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *